Em setembro passado, Paris foi palco de mais uma edição da TechnoParade, onde as avenidas de Denfert-Rochereau é fechada até a praça da Bastilha e trios elétricos bombando na música eletrônica arrastam uma multidão.
Agora te pergunto… da onde surgiu a idéia do Trio Elétrico?
Se você visualizou aquele povo baiano de abada, amarradão atrás de um Trio e logo concluiu, Bahia, você acertou em cheio.
O mundo todo importou a idéia do Trio Elétrico e Paris aprendeu com a gente a dar um Up na Parada, mas nós não aprendemos muito com eles.
Na TechnoParade alguns caminhões gigantescos da Câmara de Paris proviam água parisiense em copinhos descartáveis, pra todo mundo poder se hidratar enquanto atrás de cada trio seguia um esquadrão da limpeza, com “carros vassouras” recolhendo copos e outros lixos que eram largados pelos mais porquinhos.
Mas esse post não é pra criticar nada e sim pra contar sobra à fascinante historia do Trio Elétrico que saiu da Bahia pra animar o mundo. E se você não conhece a história, vai lendo que tenho certeza que vai te surpreender.
Em 1951, Dodô e Osmar eram músicos quase desconhecidos em Salvador e o carnaval era praticamente uma festa das elites antes deles. A dupla de músicos era conhecida como Dupla Elétrica, pois após assistirem em Salvador o violonista clássico Benedito Chaves (RJ) tocar em um concerto com um violão eletrizado, instrumento super moderno pra época, a dupla esperta e curiosa, como todo baiano, construíram em poucos dias o “pau elétrico” ou “guitarra baiana”, seguindo o mesmo principio do instrumento usado pelo Benedito Chaves, porém melhorado.
pau-electrico
“pau elétrico”
Espertos, mas ingênuos, alguns poucos anos depois, dois americanos, Léo Fender (o das famosas guitarras Fender) e Doc Kauffman, patentearam o que hoje conhecemos como Guitarra Elétrica… pois é, o principio dela é o mesmo do “pau elétrico” que após a 2ª Guerra Mundial, por uma incrível coincidência, Dodô vendeu um exemplar para um marinheiro americano que estava no Brasil. Mas como nada foi patenteado não se sabe ao certo onde ela surgiu primeiro.
Mas em 1951, o carnaval ainda era bem chatinho pela Bahia e pela primeira, um carnaval de rua começava a reunir uma gigantesca multidão nas ruas de Salvador já no primeiro dia, motivados por grandes empresas que investiram no carnaval daquele ano, marcado também com o surgimento de um novo ritmo no carnaval de Salvador; o frevo.
“foi uma loucura tão grande, o povo pulando… Nunca se tinha visto frevo aqui na Bahia. [...] Foi aí que eu dei a idéia pra Dodô: Dodô, vamos sair tocando essa música. Que eu já sabia algumas das músicas. Música de Nelson Ferreira, de Capiba… Frevo rasgado, AQUELE frevo!!! Aí nós preparamos a fobica e fomos pra rua”
Na manhã do dia seguinte, Osmar, proprietário de uma oficina mecânica, retirou do galpão um Ford 1929, conhecido como “Fobica”, e iniciou o processo de decoração pintando em todo o veículo vários círculos coloridos como se fossem confetes e confeccionou em compensado, no formato de violão, duas placas com os dizeres “Dupla Elétrica”.
Dodô, com formação em radiotecnia, decidiu montar uma “fonte” que, ligada à corrente de uma bateria de automóvel, iria alimentar a carga para o funcionamento dos alto-falantes instalados na fobica (onde eles se apresentariam com os seus “Paus Elétricos”).
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Em pleno domingo de Carnaval, e com o fobica na rua, uma confusão se iniciou quando aquela coisa começou a tomar a rua principal.
É que a estréia da fobica de Dodô e Osmar aconteceu às 17h do domingo, durante o tradicional desfile do bloco dos Fantoches da Euterpe, cuja diretoria, de fraque e cartola, pedia para que a “dupla elétrica” desligasse o carro de som. Enquanto o fobica estava desligado, os músicos tradicionais voltavam a tocar ária da ópera de Verdi, enquanto os cavalheiros fantasiados, arautos de uma realeza ilegítima, cavalgavam animais imponentes na frente do carro alegórico, com a rainha e as princesas do carnaval daquele ano jogando beijos, confetes e serpentinas para a assistência….[eita que depre].
Só que o publico já tinha ouvido os primeiros sons vindo do fobica eletrico e não queria mais aquela coisa chata, tradicional, e aos gritos de “queremos mais” o fobica elétrico, interrompeu a partitura da ópera, e o som da geringonça esmagou a banda tradicional, com o frevo misturado a marchinha carioca, levantando poeira das ruas até a terça-feira de carnaval.
Dodô e Osmar, em cima da fobica decorada e eletronicamente equipada, fizeram, assim, sua primeira aparição de sucesso. Devolvendo a festa do povo ao povo.
No ano seguinte a dupla resolveu convidar o amigo e músico Temístocles Aragão para formar o que se chamaria de “O Trio elétrico”. O nome foi ganhando fama, fazendo com que, nos anos seguintes, as pessoas ouvissem o som eletrizante e dissessem: “Lá vem o trio elétrico”.
Naquela época, o Carnaval de Salvador em nada lembrava a festa popular de hoje (novamente dominada pela elite, ao ritmo de axé music [reparem:music]). A brincadeira no centro de Salvador era apenas um desfile de fantasias ao som de marchinhas lentas, assistido por pessoas nas calçadas. Algumas chegavam a levar as cadeiras para descansar entre a passagem de um bloco e outro. O surgimento do velho calhambeque pilotado por dois jovens tocando instrumentos esquisitos foi mais que uma revolução: cadeiras guardadas, a folia nunca mais foi a mesma em nenhuma parte do mundo.
O único objetivo do invento foi dar mais alegria à festa de rua de Salvador, e prova disso é que Dodô e Osmar também nunca patentearam o carro de som eletrizado.
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As décadas seguintes trouxeram uma maré de vans e caminhões, transformados em palcos moveis, aumentando cada vez mais em tamanho, sistema de som, e sofisticação nos detalhes da sua decoração. Quando Dodô e Osmar deixaram de desfilar em 1960, o fenômeno já estava consolidado, e continuava crescendo nas mãos de outros.
Hoje, quase 60 anos mas tarde, os descendentes do velho Ford 29 evoluiram para caminhões de medidas de brontossauro, chegando a carregar equipamentos com rendimentos de até 200 db(!), altofalantes em todos os quatro lados, que recebe bandas de até 25 integrantes mais dançarinos e camarins internos que são melhores do que muitos hotéis por ai.
o-trio-eletrico-de-ivete-sangalo-80-309Um dos ambientes do Trio Elétrico da Ivete
Em agosto de 1997, Osmar adoece e vem a falecer, deixando a Bahia de luto. Numa última homenagem, seu corpo desfila pelas ruas do Centro da cidade em cima de um carro do Corpo de Bombeiros acompanhado por uma multidão. O trio elétrico “Tripodão” acompanhou o cortejo tocando no som vários sucessos de “Dodô e Osmar” sob os aplausos da multidão que chegou até a dançar respeitosamente (O espetáculo fúnebre de Michael Jackson também é inspirado na Bahia[ há . . . há . . . há . . . ]).
Boa parte de todas essas histórias estão preservadas em um livro lançado 50 anos depois da invenção do trio elétrico. O trabalho é do professor universitário e doutor em Literatura, Fred Góes, e foi lançado em fevereiro de 2000, nas comemorações do cinqüentenário da invenção de Dodô e Osmar.

